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As interações sociais são um aspecto tão básico da experiência humana que uma rejeição social é experienciada como uma dor física por muitos indivíduos – a idéia de que uma droga desenvolvida para aliviar dor física poderia reduzir esta dor “social” foi testada por Dewall (Acetaminophen reduces social pain: behavioral and neural evidence. Psychol Sci. 2010 Jul;21(7):931-7.) com resultados bastante interessantes.

A pesquisa envolveu dois experimentos nos quais os participantes recebiam paracetamol ou placebo diariamente (duas vezes ao dia) por 3 semanas.

De acordo com os autores a dor física ou causada por rejeição social seria parte inevitável da vida humana – e partindo do princípio que ambos os tipos de dor possivelmente envolvem os mesmos mecanismos comportamentais e neurais, um analgésico simples poderia diminuir a resposta a rejeição social.

A hipótese foi confirmada através tanto de informações fornecidas pelos participantes quanto por estudos de neuroimagem funcional.

No Experimento 1, 30 indivíduos (24 mulheres) receberam paracetamol 500mg ao acordar e antes de dormir por 3 semanas, enquanto outros 32 indivíduos (24 mulheres) receberam placebo. Diariamente todos preenchiam uma escala que avalia “sentimentos feridos” (Hurt Feeling Scale) indicando quanta dor social teriam enfrentado no dia.

A partir do 10o dia os indivíduos recebendo o anti-inflamatório passaram a relatar menos dor social que os do grupo placebo –  essa diferença se mostrou maior ainda no 21o dia (p<0,005).

(Considerando-se o mecanismo de ação conhecido da droga e sua meia vida/tempo de ação de somente 4-6h, pode-se somente imaginar o que motivou a latência de 10 dias para início da resposta já que não se esperam efeitos cumulativos químicos – os autores sugerem que a diminuição da percepção dos “sentimentos feridos” poderia após algum tempo levar a uma reavaliação da experiência de rejeição social.)

No Experimento 2 a dose de paracetamol foi aumentada para 2000mg diários por 3 semanas, sendo realizada uma ressonância magnética funcional ao final, com menor atividade no cingulado e ínsula anteriores em resposta a exclusão social.

 

(Publicado de forma adaptada no portal KIAI.med.br)